Trindade
Século XVII-XVIII | Madeira dourada e policromada
Museu dos Terceiros de Ponte de Lima
Ainda que a crença em Deus uno e trino só tenha sido fixada no Concílio de Niceia, em 325, a verdade é que os teólogos e os primeiros doutores da Igreja desde logo se esforçaram por provar as manifestações da Trindade em algumas passagens do Novo Testamento e mesmo a sua prefiguração no Velho Testamento. A arte cristã experimentou várias formas para tentar traduzir plasticamente a ideia de três pessoas num só Deus, recorrendo quer a símbolos geométricos, caso do triângulo ou dos três círculos concêntricos, quer optando sobretudo por figurações antropomórficas. Inseridas nesta última categoria, surgem no Ocidente, sobretudo no domínio da pintura, as várias tipologias da Trindade horizontal, que representavam as três pessoas divinas através de três cabeças separadas, com fisionomias iguais ou distintas entre si, ou então através de uma única cabeça apresentando três faces, uma central, de frente, e duas laterais, de perfil. A representação da Trindade vertical, também chamada Trono da Graça, acabou por responder melhor às acusações do triteísmo e por se impor quase como uma regra nas figurações trinitárias, independentemente de algumas variantes relacionadas com a posição de Cristo relativamente ao Pai e também com a posição do Espírito Santo relativamente ao Pai e ao Filho.
O exemplar aqui documentado insere-se precisamente na tipologia da Trindade vertical, a mais comum, e apresenta notáveis afinidades com outras belas esculturas da Santíssima Trindade veneradas em templos de Ponte de Lima, como é o caso das existentes na Igreja Matriz de Ponte de Lima, na Igreja Paroquial de São João da Ribeira e na Capela do Espírito Santo em Moreira do Lima. A Primeira Pessoa é representada sedente, em glória, no trono assumindo a forma de nuvens sobrepostas, que invadem a parte inferior do dorso da imagem, sobre as quais assenta os pés. A coroa tripla ou tiara denota a associação à figura do Sumo Pontífice, representante terreno do poder espiritual. Deus Pai enverga túnica talar branca e, sobre esta, um manto vermelho e dourado, ricamente estofado, que o cobre quase totalmente, orlado a filete dourado contínuo e com faixa em que surgem motivos fitomórficos estilizados. Na base, entre os pés de Deus Pai, surge o globo azulado, que significa simultaneamente a sua obra criadora e o objecto da sua governação, pontilhado com círculos irregulares e banda também dourada a dividir os hemisférios. O globo forma a base onde entronca uma cruz preenchida com ornamentação vegetalista, segurada nas extremidades dos braços por Deus Pai, que pretende relembrar que foi pela cruz que ele reparou a sua obra, desfigurada pelo pecado. Sobre o cimo da cruz aparece a pomba, figura sob cuja aparência se manifestou o Espírito Santo, Terceira pessoa da Trindade, no Baptismo de Cristo, nas margens do rio Jordão. As tonalidades intensas de ouro e fogo que percorrem toda a peça não deixam também de evocar, mesmo que de forma indirecta, as línguas de fogo, a outra figura sob a qual se manifestou o Espírito Santo, no episódio do Pentecostes. O tratamento elaborado do dorso da imagem, com as nuvens sobrepostas a simular o assento e o desenho do capuz da capa de asperges, revela estarmos face a uma imagem também de cariz processional.

José Velho Dantas


Foto Museu dos Terceiros de Ponte de Lima